O papel do diálogo na saúde mental
Sem políticas sociais consistentes e justiça restaurativa, a segurança não se sustenta
Vivemos em um tempo em que os conflitos atravessam tanto a vida coletiva quanto a saúde mental. Falar de paz, portanto, não é abstração, mas uma necessidade cotidiana. A etimologia ajuda a entender o tema: “paz” vem do latim pax, ligada à ideia de pacto e acordo; “conflito” deriva de conflictus, choque e embate. Essas raízes lembram que a violência e a predação fazem parte da nossa história genética, mas também que experiências positivas podem ativar a epigenética da resiliência, favorecendo a reversão e a cura.
O diálogo é central para transformar conflitos em oportunidades de convivência. Sua própria etimologia, do grego diálogos, “através da palavra”, lembra que é na troca de vozes e sentidos que surgem a compreensão e a possibilidade de paz. Mais do que uma técnica, é uma prática cultural e humana que precisa ser adaptada a cada realidade. É ele que inaugura encontros, sustenta a resiliência das comunidades e permite a construção de uma paz duradoura.
O Relatório da UNESCO aponta que 89% dos conflitos ocorrem em países sem diálogo intercultural efetivo. Onde há investimento em iniciativas locais, as chances de reduzir a violência cresce em 25%. Da Somália à Colômbia, de Myanmar à África do Sul, diálogos comunitários mostraram ser caminhos mais sólidos que intervenções externas. No Brasil, a experiência das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) ilustrou tanto potencial quanto limites: apesar de resultados iniciais, o projeto foi esvaziado e a violência voltou a crescer. A lição é clara: sem políticas sociais consistentes e justiça restaurativa, a segurança não se sustenta.
Os chamados “conflitos intratáveis” – Israel-Palestina, Caxemira, Síria, Coreia do Norte e Coreia do Sul, Sudão, Iêmen, Irã, Ucrânia-Rússia – lembram como disputas identitárias profundas geram êxodo, fragmentação social e sofrimento humano prolongado.
A saúde mental está no centro desse cenário. A OMS estima que 13% da população mundial sofre de transtornos mentais, índice que sobe em contextos de guerra. Entre refugiados, metade apresenta problemas graves, e 70% relatam melhora quando recebem apoio psicológico. Em Gaza, 80% das crianças apresentam sinais de ansiedade e depressão; em Israel, 20% da população sofre com sintomas semelhantes. Na Ucrânia, 40% enfrentam transtornos como TEPT e depressão.
Globalmente, a OMS estima que mais de 264 milhões de pessoas vivam com ansiedade e cerca de 280 milhões com depressão, tornando esses os transtornos mentais cada vez mais comuns. No Brasil, dados da OMS de 2017 já apontavam liderança mundial em ansiedade (9,3%) e quinta posição em depressão (5,8%). O inquérito Covitel 2023 revela agravamento: 26,8% da população apresenta sintomas de ansiedade e 12,7% convivem com depressão, sobretudo mulheres (sete em cada dez casos). O Atlas da Violência 2025 registra ainda 46.328 homicídios dolosos em 2023 (22,8 por 100 mil habitantes), uma queda modesta em relação ao ano anterior, mas que mantém o país entre os mais violentos do mundo.
A relação entre paz e saúde é direta: populações mentalmente saudáveis fortalecem democracias e sociedades estáveis. Onde a saúde mental é negligenciada, os ciclos de violência se perpetuam. Por outro lado, há exemplos positivos que inspiram esperança coletiva: países como a Noruega, a Islândia e a Costa Rica, que investem fortemente em bem-estar social, educação e diálogo comunitário, apresentam índices elevados de felicidade, baixa violência e sociedades mais resilientes. Relatórios da ONU e do World Happiness Report (2023) mostram como políticas centradas no cuidado e na equidade contribuem para a construção de ambientes pacíficos e saudáveis.
A ciência ajuda a compreender essas conexões. A epigenética mostra como experiências traumáticas podem “ligar ou desligar” genes que regulam o estresse e influenciar respostas biológicas que se perpetuam ao longo da vida. Estudos revelam que essas marcas podem atravessar gerações, como no Holocausto, ocorrido na Alemanha nazista, no genocídio em Ruanda em 1994, ou nas fomes do Holodomor, na Ucrânia, e na Holanda, com impactos epigenéticos duradouros nos descendentes que funcionam como transmissão intergeracional de traumas. Mas a ciência também ensina que tais alterações são reversíveis: não se trata de destino biológico, mas de alerta político e social. Criar ambientes seguros, especialmente na infância, é investir em resiliência coletiva.

Aqui, parentalidade e liderança convergem. Pais que oferecem cuidado, diálogo e apoio emocional ajudam a formar filhos mais resilientes. Líderes que promovem paz e saúde mental inspiram sociedades inteiras. Já lideranças que se alimentam da divisão reforçam os abismos: estudos da OCDE indicam que em contextos polarizados a confiança social pode cair até 40%, enquanto pesquisas do Pew Research Center mostram que sociedades mais fragmentadas registram índices 30% maiores de ansiedade coletiva.
Relatórios da UNICEF indicam que a cada quatro minutos, em algum lugar do mundo, uma criança morre em decorrência de um ato de violência. Estudos indicam que crianças expostas à violência têm até 140% mais risco de desenvolver problemas emocionais. A saúde mental, afetada pela violência e instabilidade, também pode dificultar a capacidade dos pais de oferecerem um ambiente seguro e empático para seus filhos. Para os pais, é essencial manter a comunicação aberta com as crianças, ensinando-as a lidar com emoções e a desenvolver resiliência. Isso inclui adaptar conversas sobre o que acontece ao redor à idade de cada filho. Por isso, práticas educativas baseadas em empatia, tolerância política e comunicação não-violenta são fundamentais. A UNESCO indica educação para a tolerância – ensinando desde cedo o respeito à diversidade de opiniões, culturas e crenças – é uma ferramenta essencial para prevenir radicalizações e formar cidadãos capazes de conviver em sociedades plurais. Dessa forma, tanto pais quanto líderes comunitários podem enfrentar os desafios atuais e preparar futuras gerações para um mundo mais pacífico, justo e sustentável.
Iniciativas de paz e diálogos são desafios atuais e persistentes, tanto local quanto globalmente. Aprender com os avanços e reconhecer os obstáculos – incluindo atenção à saúde mental, à parentalidade e às escolhas de nossos líderes – é crucial para construir um futuro mais pacífico, no Brasil e no mundo. A compreensão da epigenética reforça a importância de ambientes positivos e saudáveis para as crianças, mostrando que investir em paz e bem-estar é responsabilidade social e também necessidade biológica. Essa convivência é vital para a verdadeira sobrevivência e o desenvolvimento pleno das futuras gerações.
Por fim, essa discussão deve chegar aos lares do mundo. Aprender a conviver com as diferenças, promover o diálogo e cultivar empatia em comunidades e famílias é essencial para a construção de um futuro pacífico.
Essa reflexão não se encerra aqui: ela precisa ecoar em nossas escolhas diárias, em nossas casas e comunidades. O caminho da paz e da saúde mental passa por cultivar empatia, fortalecer a tolerância e praticar o diálogo como valor essencial. Só assim construiremos sociedades mais humanas, saudáveis e sustentáveis.
É preciso reconhecer que vivemos cercados de conflitos de todas as ordens e dimensões. O desafio do nosso tempo é transformá-los em relações mais justas e humanas. Nossa identidade se forma nas histórias que contamos e ouvimos, moldada por experiências familiares, sociais e culturais. Essas vivências influenciam nossas escolhas e também podem gerar desequilíbrios. Reconhecer os sinais de sofrimento físico e emocional e fortalecer a autoconsciência são passos essenciais para preservar a saúde coletiva e construir um futuro de paz.
Rubens Harb Bollos é médico, pesquisador, mentor e palestrante. Mestre e Doutor (Ph.D) em Ciências da Saúde pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e Pós-Doutorado em Biologia do Desenvolvimento (USP/ICB). Pesquisador nas áreas de imunologia, epigenética, salutogênese e cultura de paz com foco no estudo de indicadores de êxito em saúde. É presidente-fundador da ABMPP.org (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão).

